Energia no Brasil sobe 292% em 20 anos e tira competitividade da indústria de cloro-álcalis

Estratégica para atingir a universalização do saneamento até 2033, conforme prevê o novo marco do saneamento, a indústria brasileira de cloro-álcalis foi severamente impactada nas últimas duas décadas pela elevação das tarifas de energia elétrica. Entre 2001 e 2019, a tarifa média de energia elétrica paga pela indústria de cloro-soda cresceu 292%, segundo estudo desenvolvido a pedido da Abiclor pela Ex Ante Consultoria Econômica. No mesmo período, o custo em dólar por MWh da energia elétrica do setor subiu mais de 134%. A energia corresponde a quase 40% do custo operacional da indústria de cloro-álcalis e não tem fonte alternativa que possa substituir a eletricidade.

O Brasil passou da melhor posição internacional em termos de custo da energia, algo que sempre foi fundamental para compensar a falta de competitividade em outros aspectos da produção industrial nacional, para a segunda pior posição. O custo da energia no Brasil superou o patamar registrado em países da Europa, região em que a energia elétrica é gerada por usinas termoelétricas e termonucleares, com custos bem superiores ao de geração da energia elétrica no Brasil.

Como consequência dessa elevação do custo da energia, os investimentos foram reduzidos, a capacidade instalada regrediu, a produção caiu e as importações aumentaram, afirma o economista Fernando Garcia, da consultoria Ex Ante. Por ser uma indústria energointensiva é mais sensível que outras às variações de preço do insumo. Estimativas indicam que a cada 10% de aumento da energia, a formação de estoque de capital cai 6,1%.

Ao analisar os dados da Pesquisa Industrial Anual do IBGE, a Ex Ante Consultoria, observou uma retração de investimento de quase 60%, entre 2007 e 2018. Nesse período, as inversões em ativo permanente da indústria de cloro-álcalis caíram de R$ 212,3 milhões, para R$ 85 milhões.

A produção brasileira de cloro-álcalis e derivados caiu em torno de 34% entre 2009 e 2019 – no mesmo período o PIB cresceu 14,3%. Com isso, houve uma queda na participação da indústria brasileira no consumo de cloro e soda em particular. Em 2009, a indústria respondia por uma fatia 62,9% no consumo total de soda cáustica. Em 2019, com o avanço das importações, essa participação caiu para 40,7%, ou seja, queda de participação da oferta doméstica de 22,2 pontos porcentuais em 10 anos.

“Com esse custo elevado da energia, a tendência é que o Brasil se torne importador de matéria-prima, levando a um processo de desindustrialização”, afirma o diretor executivo da Abiclor, Martim Afonso Penna.

O País tem mercado para os produtos derivados da cadeia de cloro-álcalis e poderia investir na autossuficiência dessa indústria, mas o movimento observado é o contrário. O Brasil já é importador de polímeros de cloridato de vinila, principal matéria-prima empregada para a produção de tubos e conexões em PVC. As importações dessa matéria-prima – dicloroetano (DCE) – passaram de 70 mil toneladas em 1999 para 440 mil toneladas em 2019. Isso significa que, indiretamente, o País está importando cloro usado na fabricação de tubos, conexões, esquadrias, entre outros produtos que poderiam estar sendo feitos aqui.

Segundo o estudo da Ex Ante, com a universalização do saneamento, a indústria de cloro-álcalis tem potencial de dobrar de tamanho facilmente. Mas para aproveitar essa oportunidade, o preço da energia precisa ficar entre US$ 30 MWh a US$ 40 MWh, esse é o intervalo que garante competitividade ao setor. Atualmente, esse custo gira em torno de US$ 50 MWh.